quinta-feira, 5 de novembro de 2009

quarta

Adormece todas as tardes para fugir do calor e outros demônios. A tarde tem umas horas de silêncio que a assustam. Por alguma razão, parece que o tempo passa um pouco mais devagar nessa parte do dia, ela não sabe se por causa do calor ou do silêncio.
Então, quando se aproximam esses minutos mornos, antes que comece a pensar demais, que as idéias a assustem e a atropelem e a deixem muito inquieta, ela larga as tarefas por fazer, caminha com a habitual lentidão para o quarto, encosta a porta e se permite deitar um pouco.
É sempre rápido que o sono chega e a liberta das más sensações das tardes – ou a aprisiona outra vez no mesmo quarto.
Dez ou vinte minutos depois, quando desperta, antes de retomar seus mecânicos afazeres incompletos, repousa as mãos endurecidas no parapeito da janela e por um instante fica esperando o passado chegar.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

quinta

Lembra que há uma casa em algum lugar. Chegou a conhecê-la antes de achar que o ímpeto de correr o mundo podia ser maior que o anseio de morar. Pensava em morar em todos os lugares, consigo, porque a solidão já deixara claro seu poder de fogo. Havia solidão sempre.
No entanto, tinha dias como aquele, em que se via mortal e triste, em que alguma coisa faltava, por mais plena que a vida parecesse em manhãs de sol e madrugadas ébrias que anunciavam dias sonolentos.
Naqueles dias, ele recordava que sim, havia uma casa em algum lugar, e talvez valesse a pena procurá-la, antes que fosse tarde demais.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

le prime parole

Revisto o meu constrangimento com umas palavras tortas de cores neutras. Tortas como só eu as sei.
Teus olhos alheios se confundem com as paredes cinzas que pertencem a ninguém. Penso que a noite guarda muitas possibilidades, penso se é mais tua que minha. Ora, é de ninguém. Posso não morar no turbilhão asséptico da tal realidade, por mais concreta que seja a noite – mesmo que ela o seja ainda mais dentro dos teus olhos.

Uma xícara de café frio se põe entre nós e demarca terrenos áridos. Foi um átimo que disparou o comando. E de repente éramos ali, mas cada um em seu lugar. Soube então mais uma vez o que fazer da vida, a minha, da qual não participarias, não sei se por desinteresse ou por proibição, a não ser em reflexões sobre os gestos estudados dos teus braços.
E foi assim que te desconheci no dia em que dissemos “nós” de um jeito que nunca se ouviu... Seria possível inventar? Ou passou o tempo dos plurais?

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

quinta

Escreve contando notícias da guerra. Envia suas cartas freneticamente porque elas parecem pontos finais dos combates. Ao menos um intervalo, uma pausa para atividades simples: apontar o lápis, escolher o papel e concentrar-se no desenho das frases.
Ele conta de manhãs áridas e de como as cores do céu parecem de um lugar fora do mundo. Nunca vira o céu com cores assim. É como se elas estivessem ali para lembrá-lo de que era outra vida. A vida é diferente na guerra, ele dizia. Algo como uma culpa.
Nas cartas, ele se recuperava para novos dias tensos de distinguir pessoas por números. Sentia-se um pouco mais normal ao tentar achar as palavras certas para arrumar numa folha de papel. E ainda podia fazer dos relatos um pouco mais bonitos. Tomava emprestados caprichos da memória daqueles dias e recordações remotas de quando era mais parecido com um jovem (mesmo que ainda fosse jovem).
Olhava os envelopes endereçados e dormia mais tranqüilo, imaginando-se menos só.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

terça

Ela sabia que havia algo por trás daquele não ser tão peculiar a ele. O mistério da incompletude dos gestos, das frases. Ele se dizia em olhares ambíguos e no medo do silêncio. E assim, ela desconfiava daquele nome que ele dizia seu. Havia algo de errado com aquele nome.
Ele se deixava ser quando a iluminação era propícia: era melhor à meia-luz, para não se revelar muito. Preferia-se oculto, movendo-se em lances discretos, estratégias de sobrevivência. Tanto se escondeu, que se perdeu no escuro.
Enquanto isso, ela desistiu de perceber. Guardou-o na gaveta dos mistérios exagerados e foi adivinhar formas de nuvens.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

o primeiro verão


Para C, que agora terá verões ainda mais bonitos.


Naquele dia, ela viu o futuro no espelho. Teve muitas idades durante a manhã, uma manhã amarela, cheirando a baunilha e a ventos de rio e de mar. Bons ventos.
Era verão e ela se sentia muitas, com as saudades, os medos, a ansiedade, a alegria em turbilhões, o viço de sua pele, num corpo que conhecia a cada dia. Morava no mundo e o mundo às vezes a assustava, mas ela era grande e se renovava a cada instante, mais bela, mais forte, mais plena.

E no mais, se escurecesse muito, se ferissem demais as guitarras, se fizesse frio ou se o Atlântico parecesse desmedido, sempre haveria canções que a pertenciam, para conduzir viagens de retorno, e a lembrança da cor barrenta da água, que corre indicando o caminho de casa, onde as cores do pôr-do-sol abrandam qualquer desvario.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

quarta

Hoje te encontrei com teu jeito calado, que parece tranqüilo àqueles que não querem te ver. Não precisaste falar. Eu sabia pelos teus olhos e o movimento das tuas mãos o que me dizias. E era muito.
Eu sorri, porque se sorri para as descobertas, porque não há etiqueta em que caiba a felicidade. Sim, somos felizes nas nossas desventuras, tu e eu. Porque nem só das desventuras nos fazemos nós. Somos nós por conta do amor. É que já aprendemos a dançar juntos e tu entendeste aquele livro que eu li.